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quarta-feira, 1 de maio de 2013

Oito Meses

Postado por Debbie Oliveira às 12:30 0 comentários

Ela abriu os olhos lentamente, esperando encontrar os luminosos raios de sol invadindo seu quarto através das frestas da cortina. Porém, encontrou apenas a escuridão.

Esticou o braço para alcançar seu celular. Eram 3:20 da manhã.

Automaticamente seus dedos lhe guiaram para a "Caixa de Entrada". Parecia incrível que aquela mensagem ainda estivesse lá. Oito meses já haviam passado desde a última vez que falara com ele. Oito meses também desde aquele terrível dia que mudou toda a sua vida.

"Eu te amo e esperarei o tempo que você precisar"

Ela se lembrava tão bem daquela última conversa. Dissera a ele que não acreditava em suas palavras e declarações, que o melhor que ele devia fazer era deixá-la em paz. Ela havia sido cruel.

E o culpado por sua decisão era aquele senhor de aparência séria e simpática, embaixo de seus cabelos ralos e grisalhos. "Dois meses" ele havia dito.

Passaram-se oito meses.

Oito meses desde o dia em que ela decidiu não acreditar no amor.

E foi essa decisão a responsável por seu constante ar de tristeza nos últimos 240 dias. Oito meses.

A palavra "Responder" brilhava na tela do celular com mais intensidade que as demais. "Talvez eu ainda tenha uma chance." Pensou consigo mesma, corando um pouco.

Não hesitou.

"Eu nunca duvidei de seus sentimentos. Eu sempre te amei, por mais que nunca demonstrasse isso, por mais que eu tenha negado. Eu não acreditava em mim mesma, mas agora eu acredito. Te amo muito."

Uma onda de tranquilidade invadiu seu corpo quando o celular anunciou "mensagem enviada".

"Não acredito que demorei oito meses para fazer isso." Ela pensou, rindo consigo mesma.

Fechou os olhos, o sono finalmente voltara.

Sentia-se tão tranquila agora. "Talvez finalmente as coisas comecem a dar certo...", ela se sentia tão feliz que seria capaz de pular, gritar, até mesmo cantar. Mas não agora.

Fechou os olhos, ainda sorrindo.

-

Alguns quilômetros dali, ele acorda com o bip do celular.

Lê a mensagem, e depois a xinga baixinho. "Que tipo de otário ela pensa que sou? Agora sou eu que não acredito".

Ele apaga a mensagem, e volta a dormir.

-

Na manhã seguinte, ele acordará e entenderá todas as razões dela.

Ela não acordará mais. Câncer terminal no cérebro. Os médicos dirão que ela foi um milagre, que seu corpo não dava sinal de resistência maior que dois meses, porém ela viveu aqueles seus últimos oito meses com toda a força e emoção que falta em tantas pessoas que vivem 80 anos.

Seus pais se comoverão ao ler a última mensagem enviada de seu celular.

E em seu epitáfio estará: Ela amou, ela viveu.


terça-feira, 30 de abril de 2013

Confusas Soluções

Postado por Debbie Oliveira às 13:58 0 comentários

- Voar...

Foi o que Agnaldo balbuciou enquanto dormia. Marina com seu jeito desconfiado e sono leve, se revirou na cama, incomodada.

- Voar...

Balbuciou novamente Agnaldo.

- Voar o quê, criatura?! – explodiu Marina, irritada.

Agnaldo acordou exasperado, sem compreender o que estava acontecendo, quando se deparou com a expressão ranheta de sua esposa.

- O que houve, mulher?!

- Você fica resmungando coisas sem sentido enquanto dorme, esteve falando em voar, que história é essa?

Agnaldo olhou a outra com certo tédio. Mais uma briga sem sentido no meio da madrugada não ajudaria em nada no rendimento necessário para o novo emprego na manhã seguinte.

- Eu não sei, as pessoas sonham e algumas falam enquanto sonham. Eu devia estar sonhando. – Concluiu, dando as costas para Marina.

- Quer dizer que você anda sonhando em voar? Você nunca voou! Como pode sonhar com uma coisa que nunca fez?

- Amor, pelo amor de Deus! Pare de ser louca!

- Olha! Bem o que a Benedita andou me falando! Eu não acredito que você está me traindo! – gritou Marina, levantando da cama em um pulo.

- O quê?! – Agnaldo sentou na cama, perplexo.

- Benedita me falou que não tem erro! Quando um homem tenta se explicar usando “amor”, “Deus” e “louca” na mesma frase, significa que ele está dormindo com outra!

- Marina, dê voz à razão. Eu não estou te traindo. Isso não faz o menor sentido! – Suplicou o homem.

Marina sentou na cama, reconsiderando. Se parasse pra pensar, realmente isso não fazia muito sentido.

- Mas então explique o “voar”. - contrapôs, afinal, não podia dar o braço a torcer tão facilmente.

Agnaldo então se enfureceu. Levantou da cama chutando tudo o que encontrava pelo caminho. Saiu do quarto, bateu o pé até a cozinha, onde se apoiou na pia e respirou fundo.

Marina foi, sorrateiramente, atrás do marido. O que podia fazer, afinal? Foi a primeira vez que ele teve uma reação tão agressiva às suas constantes investidas desconfiadas. Esgueirou-se por trás da geladeira e espiou o homem que segurava a pia com tanta força.

- Volte pra cama. – Pediu ela, se aproximando lentamente.

- Pra quê? Para ouvir as teorias absurdas das fofoqueiras com quem você passa o tempo?

Marina estendeu o braço para tocar o marido. Ele estava certo, ela sabia disso. O puxou pelas mãos carinhosamente e o guiou até o quarto. Lá, lhe deu um beijo apaixonado e com lágrimas nos olhos, pediu desculpas.

- Eu não devia permitir que minhas loucuras passem por cima do que há de bonito entre nós... – Disse ela, com a voz embargada.

Então Agnaldo desabou. Sentou no chão agarrado às pernas como uma criança em desespero. Chorou incessantemente durante o que pareceram horas, e nada do que Marina dizia acalmava o homem. Então finalmente o choro cessou. Agnaldo agarrou firmemente os braços de Marina e a puxou para um forte abraço.

Seu peito estava arfante, seu rosto quente e molhado devido às lágrimas. Marina se afastou e acariciou seu 
rosto, confusa.

- O que foi isso?

Agnaldo baixou a cabeça, desolado.

- Você está certa. Tive um caso com uma aeromoça, mas foi apenas uma noite! – Emendou ao ver a expressão de espanto no rosto de sua linda esposa.

Marina se afastou lentamente, como se não soubesse o que fazer. Levantou e caminhou até a cama, onde deitou com o rosto no travesseiro.

Agnaldo não teve coragem de interrompê-la. Pegou uma coberta no guarda-roupas e foi dormir na sala.

“Eu sabia.” Pensou Marina, embalando num choro que duraria dias.

“Pelo menos ela parou de me encher o saco.” Pensou Agnaldo, se ajeitando no sofá.

 

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